Dois homens. Dois percursos. Duas lutas. A nova série da RTP, “Homens de Honra”, estreia hoje, 16 de Fevereiro, às 22h30, na RTP1, com disponibilização integral na RTP Play, e propõe-se revisitar a vida de duas das mais marcantes figuras do século XX português: Mário Soares e Álvaro Cunhal.
Ao longo de oito episódios, a série acompanha, em paralelo, os percursos políticos, emocionais e familiares de Soares e Cunhal, cruzando momentos, personagens e contextos históricos que ajudaram a moldar a democracia portuguesa. Mais do que um retrato biográfico, Homens de Honra constrói um diálogo permanente entre duas visões do país, duas formas de lutar, duas metades de uma mesma história.
Realizada por Sérgio Graciano e escrita por João Lacerda Matos e Raquel Palermo, a produção conta com Alexandre Carvalho e Tónan Quito no papel de Mário Soares em diferentes fases da vida, e Romeu Vala e Vítor D’Andrade como Álvaro Cunhal.
«É preciso relembrar, para não esquecer»
Para o realizador Sérgio Graciano, a série nasce de uma urgência: a de contar histórias que ajudam a compreender o presente. «Há figuras que faz sentido homenagear. E estas figuras são duas dessas. Acho que Portugal tem aqui uma lacuna grande, que é contar as histórias de alguns dos nossos heróis», afirma em entrevista ao TV Contraluz
O projecto, que demorou dois anos a ser levantado, surge num momento em que, segundo o realizador, importa recentrar o debate público. «É preciso chamar as pessoas um bocadinho à Terra. Percebermos todos o que é que custou a liberdade. Isto é tudo cíclico e é preciso só relembrar, que é para não esquecer.»
A série assume, assim, não apenas um registo dramático, mas também uma dimensão pedagógica e cívica, convocando o espectador a reflectir sobre o valor da democracia e o preço da sua conquista.
O desafio de dar corpo à História
Para os actores, interpretar figuras ainda tão presentes na memória colectiva foi uma responsabilidade acrescida.
Romeu Vala, que dá vida ao jovem Álvaro Cunhal, não esconde o peso do desafio: «Fazer o Álvaro Cunhal foi um desafio tremendo. É uma figura que ainda está muito presente na memória das pessoas.» Com poucos registos visuais da fase mais jovem do líder comunista, o actor recorreu sobretudo à pesquisa e à leitura: «Tentei compreender a sua forma de pensar, a sua resiliência e a sua força interior, que eram tremendas.»
Já Vítor Andrade, que assume Cunhal numa fase posterior da vida, recorda a dimensão simbólica das duas figuras: «Foram duas figuras que trouxeram a democracia para o nosso país. Trouxeram liberdade. Temos muito a agradecer a estes dois homens.”
No caso de Mário Soares, Alexandre Carvalho destaca a actualidade da mensagem: “É mais do mesmo, e mais do mesmo muito importante, que é esta luta pela democracia que estes dois homens tiveram. Que é imprescindível no momento em que vivemos.» Com menos material audiovisual disponível das fases mais jovens, o actor encontrou também aí uma oportunidade criativa: «Há fotografias, mas a nível de vídeo não havia assim grande coisa. Por um lado, isso também me facilitou essa imaginação, esse lado de ‘o que é que aconteceria aqui?’.»
A construção das personagens passou também por um intenso trabalho de caracterização. Romeu Vala elogia o trabalho da equipa de caracterização: «É quase como se fizessem parte da personagem que estamos a fazer. Ajuda-nos imenso, de repente olharmo-nos ao espelho e não nos vermos a nós.” Esse processo de transformação física revelou-se determinante para dar verdade às interpretações e aproximar os actores das figuras históricas que representam.
Uma conversa a duas vozes entre homens de honra
Mais do que uma sucessão de factos históricos, “Homens de Honra” apresenta-se como uma conversa entre duas personagens que, em muitos momentos, estiveram em campos opostos, mas que partilharam o mesmo objectivo maior: a construção de um regime democrático em Portugal.
Num tempo em que o debate político volta a revelar fragilidades e tensões, a série da RTP propõe-se recordar que a liberdade não é um dado adquirido, mas uma conquista que exigiu coragem, militância, inteligência e estratégia.
O elenco conta ainda com Mariana Monteiro e Margarida Cardeal (Maria Barroso), Diogo Mesquita e Miguel Amorim (Salgado Zenha), Paulo Pinto e Ivo Arroja (Octávio Pato), Tiago Teotónio Pereira (Jorge Alves), Helena Caldeira (Eugénia Cunhal), João Reis (Humberto Delgado), entre outros.
