Um homicídio numa propriedade em Sintra, uma família onde todos parecem esconder alguma coisa e um inspector capaz de comunicar com os mortos. “Jones”, a nova série da RTP1 criada e realizada por Bruno Gascon, estreia esta segunda-feira, 28 de Setembro, às 22h30, e parte de uma pergunta aparentemente simples: e se a vítima de um crime pudesse ajudar a descobrir quem a matou? Ao TV Contraluz, Bruno Gascon e José Pimentão explicam como nasceu este policial sobrenatural e levantam algumas pistas sobre os mistérios que vão muito além da identidade do assassino.
Uma família poderosa reúne-se numa luxuosa propriedade em Sintra para celebrar um noivado. A festa, porém, termina com um homicídio. É neste cenário que entra Oliver Jones, inspector interpretado por José Pimentão, com uma particularidade que os restantes desconhecem: consegue falar com os mortos.
A sua principal aliada na investigação acaba, por isso, por ser precisamente a vítima. Júlia, interpretada por Laura Dutra, permanece presente depois da morte e junta-se ao inspector na tentativa de perceber quem a matou. Mas ter a vítima disponível para responder a perguntas não torna necessariamente o caso mais fácil.
Bruno Gascon explica ao TV Contraluz que, partindo de um ponto em que a vítima de um crime pode falar com o investigador, interessava-lhe saber onde essa premissa nos podia levar. «Porque falar com um morto não significa necessariamente ter acesso à verdade.»
Um policial clássico com uma nova regra
À primeira vista, a premissa de “Jones” pode evocar universos como “Ghost Whisperer”, “The Listener” ou “The Sixth Sense”. Bruno Gascon admite que essas referências podem ser encontradas na série, mas garante que não estiveram na origem da história.
A inspiração mais evidente surge antes nos mistérios de Agatha Christie e na construção de um grupo fechado de suspeitos, onde todos escondem alguma coisa.
«Sempre gostei muito dos mistérios de Agatha Christie, daquela ideia de um grupo de pessoas fechado num mesmo espaço, em que todos têm um motivo e ninguém é exactamente aquilo que parece», diz o criador. «Em ‘Jones’, quis pegar nessa estrutura e introduzir-lhe uma regra nova: há alguém na investigação que já morreu.»
Ao longo de seis episódios, a investigação vai mergulhar nos segredos da família Salvaterra e numa teia de relações marcada por alianças, ressentimentos, interesses e jogos de poder. Porque, para Bruno Gascon, a pergunta central não é apenas quem matou Júlia.
«O que me interessava era perceber o que é que aquela morte revela sobre aquela família. Os Salvaterra têm uma história, relações de poder, ressentimentos, alianças e segredos que vêm de muito antes daquela noite.»
É através destas dinâmicas familiares que começam a surgir as contradições entre aquilo que cada personagem diz, aquilo que pensa e aquilo que está disposta a fazer para proteger os próprios interesses.

Uma série sobre pessoas – e não sobre fantasmas
Apesar do elemento sobrenatural estar no centro da premissa, Bruno Gascon afasta a ideia de “Jones” como uma série essencialmente dedicada ao paranormal: «Não queria fazer uma série sobre fantasmas, mas uma série sobre pessoas. O sobrenatural é a ferramenta que nos permite contar essa história de uma maneira diferente.»
Assim, entre o mistério policial, o humor negro e o sobrenatural, a série procura também construir um retrato de uma família colocada perante os segredos que durante anos conseguiu manter escondidos.
«No fundo, ‘Jones’ é tanto um mistério sobre uma morte como um retrato de uma família que, quando é obrigada a olhar para os seus próprios segredos, começa a revelar quem realmente é.»
E nem sequer a personagem que dá nome à série estará livre desse jogo de ocultação.
Oliver Jones também tem segredos
Para José Pimentão, construir uma personagem capaz de falar com os mortos não passou por procurar outras figuras da ficção com poderes semelhantes.
«A personagem foi preparada em articulação com o Bruno, trabalhando o guião a fundo e discutindo as ideias e traços de personalidade que caracterizavam a personagem, bem como as circunstâncias em que está colocada na narrativa, mas sem recorrer a nenhuma referência ou inspiração em particular», conta o actor ao TV Contraluz.
Uma das particularidades de “Jones” está precisamente na forma diferente como se relaciona com vivos e mortos. Perante os primeiros, o inspector tem de esconder permanentemente aquilo que consegue fazer.
«Há [uma diferença], na medida em que é importante que Jones esconda dos vivos que tem este ‘dom’», explica José Pimentão. «O contrário não acontece, sendo até os mortos que o ajudam a ocultá-lo.»
Essa necessidade de esconder a sua capacidade acrescenta uma segunda camada à investigação: enquanto tenta descobrir os segredos da família Salvaterra, Jones tem de garantir que ninguém descobre o seu.
E o passado do próprio inspector promete tornar-se progressivamente mais importante.

Há pistas desde o início
Bruno Gascon confirma que os seis episódios vão permitir conhecer melhor Oliver Jones, mas avisa que nem todas as respostas serão dadas.
«Vamos conhecer melhor o Jones, mas não necessariamente tudo sobre ele. Há perguntas que a série vai responder e outras que prefiro deixar no território da dúvida.»
O mistério em torno do protagonista acaba, aliás, por correr em paralelo com o homicídio que investiga.
«Acho que o mistério do Jones é tão importante como o mistério que ele está a investigar. Quanto mais ele se aproxima da verdade sobre a morte da Júlia, mais perguntas surgem sobre quem é, afinal, o próprio Jones.»
Para os espectadores mais atentos, o criador deixa ainda um aviso: algumas respostas poderão estar escondidas à vista de todos.
«Talvez, no final, o espectador perceba que algumas das respostas estavam lá desde o início. Existem muitas pistas nos episódios para quem estiver atento.»
Além de José Pimentão e Laura Dutra, “Jones” conta com a actriz britânica Amanda Abbington, conhecida internacionalmente pelas participações em “Sherlock” e “Mr. Selfridge”. Na série, interpreta uma actriz inglesa agorafóbica que sonha ser Sherlock Holmes e acaba envolvida no universo desta família e da investigação.
O elenco integra ainda Rafael Morais, Ivo Canelas, Rui Morisson, Raquel Rocha Vieira, Paula de Magalhães, Afonso Lagarto, Margarida Moreira, João Cachola e Silvia Chiola.
Com autoria e realização de Bruno Gascon e produção da Caracol Studios, Jones estreia esta segunda-feira, 28 de Setembro, às 22h30, na RTP1. A série terá seis episódios e estará também disponível na RTP Play.
Num mistério em que até a vítima pode depor, a questão talvez não seja apenas descobrir quem está a mentir. É perceber se vivos ou mortos estão realmente dispostos a contar toda a verdade.
