Lisboa recebe um novo mergulho no lado mais sombrio do género policial. Em “Lisbon Noir“, a figura lendária de Diogo Alves, o célebre “Assassino do Aqueduto”, serve de ponto de partida para uma história contemporânea, intensa e visualmente ambiciosa, que troca a reconstituição de época por uma ameaça actual: um assassino em série obcecado com os crimes do passado e decidido a repeti-los no presente.
Tudo começa quando um diplomata espanhol cai do topo do Aqueduto das Águas Livres. O que parece, à partida, um suicídio ou um caso isolado depressa ganha outra escala. À medida que a Polícia Judiciária aprofunda a investigação, com a ajuda de Nour (Mina El Hammani), uma inspectora espanhola, torna-se claro que Lisboa está perante um novo predador. Um copycat de Diogo Alves começa a escolher as suas vítimas e a lançá-las dos pontos mais altos e mais icónicos da cidade, obrigando os inspectores Daniel (Pêpê Rapazote) e Laura (Beatriz Godinho) a entrarem numa corrida contra o tempo para travar a espiral de terror.
Do século XIX para o contemporâneo
Para Artur Ribeiro, criador da série, o caminho até à estreia foi longo e tudo menos linear. «Foi uma grande lição», resume em entrevista ao TV Contraluz, ao recordar um processo que começou com a escrita do episódio-piloto em 2020 e que atravessou vários anos de desenvolvimento, reescrita e procura de parceiros. Mais do que um atraso, esse tempo transformou-se numa oportunidade para maturar a narrativa. Como o próprio sublinha, «desde que haja investimento na escrita, o resultado final há de ser sempre mais enriquecedor para todos».
Foi também dessa maturação que nasceu a decisão de não fazer uma série de época. Em vez de recuar ao século XIX, Artur Ribeiro preferiu transportar o mito para a actualidade. A escolha parece definir desde logo a identidade de “Lisbon Noir”: uma série que usa o imaginário histórico português, mas que o filtra através de um thriller moderno, urbano e assumidamente internacional. «É uma série que vai de facto interessar o público, sobretudo para ver uma Lisboa de um lado diferente.»
Esse olhar diferente sobre a cidade é, aliás, uma das marcas mais fortes do projecto. O elenco reúne nomes com projeção dentro e fora de portas – Pêpê Rapazote, Beatriz Godinho, Mina El Hammani, Luís Filipe Eusébio, Cleo Diára, Teresa Tavares e Paulo Pires – e coloca-os ao serviço de uma história onde Lisboa deixa de ser apenas cenário e passa a funcionar como extensão da ameaça. O Aqueduto, os miradouros, as alturas e as fachadas da capital tornam-se parte do mecanismo de tensão, quase como se a cidade inteira estivesse construída sobre a possibilidade de uma queda.
Um policial dinâmico que procura a internacionalização
Beatriz Godinho revela que entrou no projecto de forma súbita, quase «em queda livre», mas viu nisso um desafio criativo estimulante. «Pela primeira vez tive que confiar nas minhas intuições», conta a actriz, que assume ainda ter «um grande fraquinho» por policiais e acção. O entusiasmo foi reforçado pelo guião, que descreve como estando «dramaturgicamente tão bem oleado, tão bem dinamizado» que era impossível deixar passar a oportunidade.
A actriz fala também de uma série com identidade visual muito própria. «Estou muito orgulhosa por sentir que é uma série com imensa personalidade», afirma. E acrescenta: «quase metade dos planos da série brincam com verticalidade», numa escolha estética que parece dialogar directamente com a lógica da narrativa e com a obsessão do assassino pelas alturas. A isso soma-se uma banda sonora particularmente presente, ajudando a construir um ambiente de inquietação constante. E mais, a composição musical, da autoria de Nuno Côrte-Real, foi desenvolvida especificamente para a série, cena a cena.
Do outro lado da escuridão está Luís Filipe Eusébio, chamado a mergulhar numa das figuras mais perturbadoras do universo da série. Sobre esse processo, o actor não hesita: foi feito «com coragem». Sem procurar justificar moralmente uma personagem tão extrema, o actor optou por uma construção mais racional, apoiada na pesquisa sobre psicopatia e no diálogo com Artur Ribeiro. «Contei muito com o apoio do Artur na construção da personagem», explica, num trabalho que passou também por documentários sobre assassinos em série e por uma abordagem física muito exigente.
Essa exigência sente-se também na acção. O ator revela ter feito «quase tudo» em termos de stunts e arrisca mesmo dizer que executou «90% do que se vê», num registo físico que ajuda a reforçar a dimensão mais crua e urgente de “Lisbon Noir”. O resultado, acredita, prova que a ficção portuguesa pode jogar noutro campeonato sem complexos.
Essa ambição está alinhada com o próprio espírito da série. Produzida em parceria com a TVI e a Prime Video e pensada para falar com o público português sem abdicar de uma linguagem exportável, “Lisbon Noir” quer elevar o policial nacional e mostrar que Lisboa também pode ser palco de um noir contemporâneo, duro, estilizado e emocionalmente tenso. Artur Ribeiro resume esse desejo com humor e frontalidade: está «mortinho para poder ver isto no Alasca e no Burkina Faso». Entre a piada e a convicção, fica a ideia certa: “Lisbon Noir” quer ir além-fronteiras.
